quarta-feira, 6 de agosto de 2014

eu e a lua

distraídos, eu e a lua
numa noite escura e nua
despida de estrelas e certezas
vestida com alegrias e tristezas

pensativos, eu e a lua
em busca da poesia vaga e crua
ainda que com rimas óbvias e banais
estrofes tolas e carnais

e assim ficamos, eu e a lua
sonhando a estrada que se insinua
esperando a rosa amarela se abrir
o lírio da montanha sorrir

e até que o vento leve os versos desta poesia
e suas palavras misturadas com o sabor da maresia
um poeta, distraído e pensativo, continua...

no infinito da eternidade, eu e a lua.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

epifania parte II


então, viver é isso
contrato de adesão
ser feliz é a obrigação
ter querer possuir
a todo custo
contra tudo e contra todos
rir dançar cantar
manter o ritmo
seguir o rebanho
beber comer  fumar
kkkkk hihihi hahahaha
funk cerveja futebol
novela das oito carnaval...

então, viver é só isso
e pronto
é só ser normal
fazer o que todos fazem
tudo sempre igual
falar discutir gritar
palavrões e coisa e tal
depois fazer as pazes
tem a mesa do bar 
pagode no fundo do quintal...

então, viver é somente isso
e mais nada
é encontrar alguém
um sexo oposto ou não
ficar beijar se enrolar
oi tudo bem
tchau até mais
amanhã é outro dia
amor pra quê
pra que serve poesia?
 
então, viver é isso...
 
confesso que falhei
confesso meu fracasso
confesso que tentei

tentei beber
no copo deste projeto
de alegorias e fantasias
e o gosto de mel me embrulhou
a alma

até quis ser um igual
compartilhar desta felicidade insana
confraternizar com a estupidez santificada
da sociedade mundana
comemorar o ridículo do absurdo
da normalidade banal

agora o que resta
é encarar o espelho e tentar
montar o quebra-cabeças
do seu reflexo quebrado
em pedaços de dúvidas
do que não quis,
do que não pude
ou do que não soube ser

e assim
sob a chama bruxuleante
de uma vela que insiste
em não apagar
chegar
a um improvável diagnóstico
para uma cura vadia
que me faça beber
com nojo e vontade
dessa infeliz taça 
de felicidade coletiva

um verdadeiro brinde
ao fracasso do meu fracasso


quarta-feira, 2 de julho de 2014

elucubrações

se eu fosse Deus...

veria o universo através
da pétala de uma flor

não correria o risco
de vê-lo sem amor

todo o infinito
na palma de minha mão

toda a eternidade
numa fração de segundo

mas sou, num mar de areia
apenas um grão

e que diferença faço nesse mundo?

se eu fosse Deus
viveria a imaginar...

teria ideias secretas
e as esconderia
num mágico lugar:

                             [o tolo coração dos poetas

segunda-feira, 2 de junho de 2014

borboleta

da janela de casa
avisto a montanha, a palmeira
e o sabiá

rezo neste altar particular

numa manhã ensolarada
pousou-me no braço
uma borboleta
que se pôs a me observar

retribui o olhar
sem nada poder lhe falar

ficamos os dois agradecidos
em silêncio profundo
dois universos distintos
juntos no mesmo mundo

nenhum de nós queria o adeus
diante da inusitada presença
de Deus


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Mamãe

No início era assim:
 
"Bilu-bilu, cadê o bebezinho lindo da mamãe?; não chora, já vou dar o leitinho; vamos tomar um bainho gostoso?; de quem é esse queixinho? é da mamãe..."
 
Depois:
 
"Já escovou os dentes? Tá na hora de tomar banho; se não comer tudo não ganha sobremesa, quero ver o prato limpo; chega de comer chocolate!"
 
E depois...
 
"Para de jogar bola, olha as minhas samambaias! Já fez o dever o casa?; Não é possível, não tem nem dez minutos que você sentou pra estudar e já tá chutando essa bola de novo?; Chega de comer chocolate!"
 
Continuando...
 
"Você não estuda e tira sete e meio... se estudasse tiraria dez!; A nota dos outros não me interessa, me interessa a sua, você é que é meu filho e não os outros!; Vou falar com o seu pai que você só sabe tocar violão e ler Homem-Aranha. E para de comer chocolate!"
 
E os anos passam...
 
"Você já mediu a sua pressão hoje? Quanto tempo você não faz um exame de sangue?; Tem que mandar o seu filho ir estudar. Ele não pode ficar no computador o dia inteiro. Ele não estuda e tira nota boa, já pensou se ele estudasse? Ele precisa se alimentar melhor, não pode ficar comendo só macarrão com carne moída. E ele tem que parar de comer chocolate."
 
Pois é...
 
Essa é a minha mãe: a expressão do amor mais puro e verdadeiro que eu conheci nessa vida.
Sentimento que dispensa palavras e traduz-se na mais bela poesia.
Se amor tem nome ele se chama Josette.
 
Te amo, mãe!

Ah, só mais uma coisa: você também precisa parar de comer chocolate! ;)


segunda-feira, 7 de abril de 2014

O colar de Maria Alice

- João Alfredo, fecha esse colar aqui pra mim.
- Posso acabar de dar o nó na gravata?
- Não, tem que ser agora!
- Tá bom, me dá isso aqui... pomba, Maria Alice, esses fechos estão ficando cada vez menores. Não tô conseguindo.
- Mas vai ter que conseguir! Comprei esse colar especialmente pro batizado do nosso neto. Vai, prende logo isso.
- Não dá, eu tô sem unha, acabei de cortar.
- E isso é hora de cortar a maldita unha?
- E eu lá sabia que teria que fechar esse maldito colar?!
 
João Alfredo largou o colar em cima da mesinha de cabeceira. Sentou-se na cama, tirou os óculos e levou as duas mãos ao rosto, balançando a cabeça pra lá e pra cá.
 
- Não aguento mais isso, Maria Alice. Preciso desabafar.
 
Maria Alice não entendeu nada. O que era aquilo? Um desabafo? Após trinta anos de casados, seu marido resolveu discutir a relação? E na hora do batizado do Paulo André? Não, vai ver era só o fato dele não conseguir fechar o colar.
 
- Joãozinho, meu amor, fica calmo, dá o nó na sua gravata, depois você tenta novamente fechar o meu colar, sem estresse...
- Eu não tô falando desse colar, já falei que não há como fechar essa joça. Pelo simples fato de que eu não consigo abrir o fecho da argola. Se eu não consigo abrir o fecho da argola, não há como colocar a argolinha dentro da argola, ou seja, não dá pra fechar essa porcaria. Entendeu ou quer que eu desenhe? Eu estou falando de mim, preciso confessar uma coisa.
 
Confissão? Não era desabafo? Maria Alice estava confusa. Não sabia lidar com aquela situação. Essas palavras nunca tinham saído da boca do João Alfredo naqueles trinta anos de casamento.
 
- Joãozinho, não dá pra fazer essa confissão ou desabafo, sei lá, depois do batizado do nosso netinho?
- Não, tem que ser agora.
 
Maria Alice ficou tensa. Nervosa. Em estado de choque.
 
Não, Maria Alice não queria ouvir. Não queria ouvir que seu marido não a amava mais. Pior: que nunca a amou. Que todos esses anos ele fingiu ser um esposo apaixonado, cumpridor de seus deveres.
 
Não, Maria Alice não queria ouvir. Não queria ouvir que seu marido tinha outra. Que sempre a traiu, e que agora estava apaixonado pela amante e ia largar tudo pra ficar ela.
 
Não, definitivamente Maria Alice não queria ouvir. Não queria ouvir que, sei lá, ele era gay e resolveu sair do armário, e que depois de trinta anos de uma relação heterossexual, ele resolveu viver uma paixão enrustida com outro ser do mesmo sexo.
 
E, realmente, não foi nada disso que Maria Alice ouviu.
 
- Eu não consigo entender o que os padres falam. Começou nas missas que mamãe me levava aos domingos. Quando o padre começava o sermão, eu não entendia nada. Depois veio o nosso casamento. Tirando a parte do "você aceita Maria Alice como sua legítima esposa?" eu não entendi patavinas do que o padre falou. Idem nas nossas bodas de prata; no batizado, primeira comunhão e casamento da Maria Regina.
- Mas você chorava tanto no casamento da Maria Regina...
- Exato! E por quê? Porque eu não entendia nada que o padre falava. Você ouviu, Maria Alice, NADA!
 
"Imagina quanta coisa eu perdi, como eu poderia ter sido um homem melhor se entendesse as missas, os sermões. Eu estou vivendo em pecado esses anos todos. Eu sequer entendia as penitencias que me eram dadas quando me confessava. Rezava sempre dez Pais Nossos e dez Ave Marias, por via das dúvidas. Não, não vão me deixar entrar no Céu, estou certo disso.
 
Agora, o batizado do Paulo André. Mais uma vez sem entender nada. Eu não vou aguentar, Maria Alice!"
 
Maria Alice relaxou. Seu casamento estava aparentemente a salvo. Ele ainda a amava, não tinha outra e não era gay.
 
Só uma coisa continuava lhe preocupando: o fato dele não conseguir fechar o seu colar novo.
 
Isso, sim, era o problema a ser resolvido.   

terça-feira, 11 de março de 2014

O sorriso de Deus

Os longos cabelos cobertos de neve, presos num rabo de cavalo, denunciam a sabedoria do tempo escondida em sua alma.
 
As rugas e marcas de expressão espalhadas em seu rosto me remetem a um jardim de margaridas brancas, que ao serem osculadas pelo vento, produzem a mais formosa melodia.
 
Seu olhar foca a linha do horizonte. O encontro do céu de Oxalá com o mar de Yemanjá. O mais belo ponto de força da natureza, que não existe. É somente uma ilusão de ótica. Ao contrário da simpática senhorinha parada na minha frente, na beira do mar, imortalizada pelo tempo.
 
Talvez ela esteja fazendo uma prece. Ou pensando no seu falecido marido. Talvez ela esteja lembrando de cada um dos momentos felizes em que viveu em sua jornada terrena. Pode ser que ela esteja decidindo se vai comer um biscoito Globo ou uma empadinha de queijo. Ou no que vai preparar para o jantar. Quem sabe ela não está apenas lembrando de um cachorrinho de estimação que a deixou há trinta anos atrás?
 
Vai saber...
 
Ela dá três passos em direção ao mar. A primeira onda vem lhe saudar. A segunda lhe beija os pés e tornozelos. As demais querem apenas com ela brincar.
 
Ela se curva, molha suas mãos e faz o sinal da cruz. Várias vezes. Ela estende os braços em direção aos céus, com as palmas das mãos viradas para cima, como quem agradece por alguma coisa, talvez por aquele momento, talvez por alguma graça, talvez por... Não. Ela apenas agradece. Pela vida.
 
As ondas batem em suas pernas finas, enrugadas e firmes e a senhorinha lá, brincando e conversando com as ondas, se sentindo parte integrante daquele quadro de areia, mar, espuma e conchas.
 
Ela lembra de todas as coisas que as ondas lhe trouxeram: alegrias, tristezas, amores.
Ela lembra de todas as coisas que as ondas lhe levaram: alegrias, tristezas, amores.
 
Ela sabe que as ondas não cessam de ir e vir. E aguarda as próximas ressacas e calmarias. Porque ela sabe que a vida é assim.
 
Ela não se desespera mais com as tempestades da vida. Porque ela usa um agasalho impermeável. O agasalho da fé. Ela sabe que tudo sempre passa. Que uma hora o sol se esconde, que as nuvens choram, afinal as flores tem que brotar. Mas o sol sempre volta.
 
Quando ela finalmente sai do mar, o sorriso lhe enfeita a face. Mas esse sorriso não é dela. Ela apenas empresta, gentilmente, o seu rosto para o Criador.
 
Esse sorriso... é o sorriso de Deus.